Por Rodrigo Novak – Colunista

Como vocês estão em época de COVID-19? Espero do fundo do meu coração que você e os seus estejam seguros e bem na medida do possível.

Quando falo isso, me demoro na palavra bem. E o que quer dizer estar bem?

Venho observando que se sentir bem nos tempos atuais está sendo aparentar normalidade. Se manter produtivo, inclusive mais produtivo que normalmente se é.

Cuidar da casa (antes tercerizada), cuidar da família (momento perfeito para reconexão), preparar as refeições (vamos tirar aquele livro de receitas da prateleira), trabalhar (home office), estudar (EAD), fazer exercício (corona sim, mas gordinho nunca).

À noite acompanhar o BBB (fada sensata, cancelamento, fora fulano) e talvez mais à noite ler um livro para pegar no sono (de preferência algum de finanças que nos ensine a superar a crise econômica). Ufa!

Mas será que tem como dar conta disso tudo? E será que dar conta disso tudo é normalmente humano?

Rodrigo Novak

O papa Francisco, em seu discurso, disse “Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”. Será que o animal humano tem que ser tão destemido assim?

Existe um termo utilizado na mitologia grega chamado hamartia (pecado). Quando os homens adquirem características que os aproximam dos deuses, acontece uma hamartia e, para manter a ordem, os deuses agem (ex. o mito de Narciso). Será que o nosso avançar, a nossa produção desenfreada, não foi uma hamartia?

Lanço todas essas perguntas, pois também preciso de ajuda para respondê-las. É tudo tão complexo… Mas pelo pouco que eu entendo, não dá para se ter uma vida normal em uma situação tão diversa como essa.

Rodrigo Novak

Parte de nós foi “obrigado” a voltar para casa, que venho chamando ultimamente do “cantinho do pensamento”.

Saímos da cena pública e fomos convidados a voltarmos ao privado. Regressamos para a caverna de Platão. Bem instintivo, se sair o bicho pega, se ficar o bicho come.

Um perigo que a nossa capacidade humana nem consegue enxergar pelos sentidos. Sabemos pela sombra da fogueira que milhares de pessoas são acometidas por esse bicho.

E que ele está ali, próximo, talvez do seu lado. Em contrapartida, a nossa ausência do mundo público, pelo visto, só tem feito bem para o planeta. Rios despoluindo, outros animais voltando a aparecer…

Fomos indiciados a voltarmos a nossa condição humana. E o humano sente medo, o humano sente angústia, o humano sente fome, o humano tem cheiro, mas, além de tudo, o humano tem esperança.

Êta palavra bonita que nos foi dada para termos no que nos apoiar, esperança. Tão humana e divina ao mesmo tempo.

Talvez o exercício aqui seja a gente começar a criar uma relação com a saúde que vá além da produção. Porque saúde também implica em darmos vazão para a nossa condição humana.

Rodrigo Novak

O que sugiro então é trazermos humanidade para a saúde. Com todas as nossas limitações humanas, com todos os nossos “não conseguir”, “não dar conta”, mas também com a nossa esperança.



Sobre Rodrigo Novak

Rodrigo Novak é comunicólogo, estudante de Florais de Bach e futuro psicólogo.

Residente de Curitiba (PR), gosta de encontros demorados e acredita no poder da qualidade em relação à quantidade.

Qual tema de vida te aflige? Mande um hello para o colunista no email orodrigonovak@gmail.com



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